O tratamento

A gente demora um pouco para aceitar (ou às vezes nunca aceita) o fato de estarmos com um câncer.  Quando finalmente saiu o meu diagnóstico – tenho um adenóide cístico – fui procurar os médicos indicados por meu cirurgião e tentar entender o que precisaria fazer e o que era esse monstrengo que foi tirado do meu pescoço.

O carcinoma adenoide cístico é considerado o segundo tumor maligno mais frequente de glândula salivar. Acomete mais mulheres do que homens, em uma proporção de três para dois, com incidência maior na sexta década de vida.

Sem um fator predisponente conhecido até o momento, o tumor afeta glândulas salivares maiores, volumosas, como a parótida, mas também glândulas muito pequenas, que ocorrem na mucosa da boca e do trato respiratório superior (nariz, seios paranasais, traqueia, brônquios).

Fonte: Agência FAPESP

Acima, diz que incidência maior é na sexta década. Mas vou fazer a Phoebe Buffay e dizer que meu organismo é mais acelerado que a medicina ocidental, já que ainda estou na casa dos 40.

Na radio-oncologista (ou radioterapeuta), fui apresentada à radioterapia e o que ela poderia fazer pelo meu caso. E aí Dra. Patricia ia falando que eu, em certo ponto do tratamento, iria perder o paladar e a vontade de comer, teria “sapinho” frequentemente e apesar de tudo isso não poderia perder peso. OI??? Mas entendi o porque e tem a ver com a imagem abaixo.

Máscara termoplástica

Isso é uma máscara para radioterapia utilizada em pacientes de cabeça e pescoço. \o/ Na radioterapia, é feito uns cálculos para que a radiação vá no lugar certo e o propósito da máscara é para o paciente não mexer a cabeça/pescoço (ela é presa na mesa do exame). E o propósito de eu não poder emagrecer é justamente essa máscara. Se eu perdesse muito peso, teria que refazer a máscara (que é moldada ao meu rosto) e os cálculos teriam que ser refeitos. Então bora virar Mulher Hulk. No oncologista, fiquei sabendo que faria 3 ciclos de quimioterapia e os exames de controle seriam refeitos a cada 3 meses. Então bora lá perder umas hemáceas, plaquetas, viver com imunidade baixa, f*der com rim e fígado, perder uns fios de cabelo.

Já estava afastada do trabalho e ficar em casa o dia todo descansando era meio bleh, sabe ? Porque eu poderia muito bem viver no google e descobrir qual a sobrevida de um paciente com adenóide cístico, recidiva, metástases… Confesso que fiz isso algumas vezes (descobri o que queria e não, não vou contar aqui) e chorava. Quem nunca quis pesquisar a fundo sua doença ?

Ia de segunda a sexta pro hospital fazer a radioterapia, que é um procedimento muito, muito rápido. Mal piscou e já saiu da máquina. A cada 21 dias, ficava o dia todo num quarto do hospital fazendo a quimioterapia. Tinha almoço, lanchinho, psicólogo, dentista (eu ia ter alguns vários problemas bucais), nutricionista maravilhosa. Diz aí, que nutricionista diz pra você comer leite condensado ? Podia comer o que quisesse, desde que tivesse vontade. E pra ser sincera, tudo que eu colocava na boca, parecia farinha. O que me agradava (e até hoje, se deixar, como uma caixa disso sozinha) eram uvas sem caroço. O Dr. Marcelo (meu oncologista amorzinho) sugeriu colocar uma sonda, por precaução, pois se eu realmente perder a vontade de comer, tinha que ter um jeito de me alimentar. A minha era direto no estômago (gastrostomia) e eu tinha um caninho pendurado no abdômen para inserir o líquido. E o dia finalmente chegou. Chamei a nutricionista para conversar e contei que não conseguia comer. Na hora ela me deu um líquido hipercalórico e saí com uma lista de lugares que vendem alimentos e acessórios para nutrição enteral (via sonda). Comprei o que foi sugerido e me alimentava de 1200 calorias divididas em 4 porções por dia. E isso que me manteve em pé por meses. Não sentia gosto de nada, nem doce, nem salgado. Imaginem meu sofrimento, já que sou uma pessoa que ama comer.

Nesse ponto, já tinha aceitado melhor minha condição e coloquei na cabeça que iria matar esse monstro e sairia dessa de cabeça erguida. Continua comigo porque no próximo post vou contar sobre meu primeiro ciclo de quimioterapia. Já adianto que vai ser nojentinho.

Até o próximo e beijos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *